Método e Pesquisa

Criar e utilizar tapetes ou painéis de tecido como cenários para narração oral é uma manifestação popular recorrente em diversas culturas e em distintas épocas da história da humanidade (gabbehs iranianos, arpillería andina, quilts da tradição colonial norte-americana, estandartes de palha e pano do nordeste brasileiro).

Desde a antiguidade, podemos encontrar narrativas que envolvem tapete e oralidade, têxtil e texto, como o mito grego de Filomena (séc V a.C.) que, raptada pelo cunhado e impedida de falar, tece um grande tapete para contar à irmã as maldades do marido e obter justiça.

Em 1998, na cidade do Rio de Janeiro, atores formandos pela Escola de Teatro da UniRio tiveram conhecimento desta prática a partir do contato com o diretor teatral, contador de histórias e artesão francês Tarak Hammam, responsável pelo projeto “Raconte-Tapis”, desenvolvido no interior da França desde 1987. Tal projeto foi fundado por sua mãe, a educadora Clotilde Hammam, quem teve a iniciativa de costurar tapetes para contar histórias e, com isso, estimular crianças à leitura.

No Brasil, os atores fundaram o grupo “Raconte-Tapis – Os Tapetes Contadores de Histórias” e começaram a se apresentar em diversos espaços culturais do Rio de Janeiro, além de participar e produzir uma série de atividades e oficinas com Tarak Hammam. De início, o acervo do grupo era composto por tapetes criados pelo artista francês, que representam cenários de contos da África, Ásia e Europa.

Quatro anos depois, em 2002, os coordenadores do grupo, Cadu Cinelli e Warley Goulart, confeccionaram tapetes baseados em contos de Carlos Drummond de Andrade, especialmente para a sessão ‘Retalhos de Drummond’, inaugurando um projeto de criação de tapetes a partir de histórias brasileiras. Neste movimento de criar suportes baseados na literatura oral e escrita nacional, e após intenso contato com a realidade educacional e cultural brasileira, o grupo mudou seu nome para “Os Tapetes Contadores de Histórias”.

A partir de então, o grupo passou a contar histórias e ministrar oficinas em cidades do Brasil e exterior, e, nestas visitas, se deparando com uma profusão de objetos que distintos artistas criavam como cenários para apoio às suas narrativas orais – ora como resultado de uma tradição cultural, ora criação exclusiva do próprio artista.

Inspirados por estes encontros, em 2004, Cadu Cinelli e Warley Goulart confeccionaram mala, avental, tapete, caixas de pano e madeira para dar vida a histórias de Ana Maria Machado (Brasil) e Jutta Bauer (Alemanha), criando a sessão de histórias ‘Cabe na Mala?’. Neste mesmo período, a integrante do grupo Rosana Reátegui foi ao Peru estudar as possibilidades criativas da arpillería (técnica artesanal andina de costura à mão de painéis de tecido).

Ambas pesquisas alcançaram em 2005 novos resultados: No Rio de Janeiro, o grupo criou um tapete gigante de 12 metros para o espetáculo ‘O rei que ficou cego’, baseado em homônimo conto popular brasileiro, na versão de Ricardo Azevedo (Brasil); e em Lima (Peru), Rosana Reátegui fundou o ‘Manos que cuentan’, uma ação conjunta com artesãs da Associación de Arpilleras Taller Santa Julia na produção de livros de pano a partir da literatura oral peruana – ação que recebeu no mesmo ano o Prêmio de Melhor Livro-Objeto pela Câmara Peruana do Livro. No ano seguinte, o projeto dos Tapetes Contadores recebeu o PRÊMIO CULTURA NOTA 10, do Governo do Estado do Rio, como umas das 21 ações culturais mais importantes do ano; e convidados pela Editora Global (SP), Cadu Cinelli e Warley Goulart criaram ilustrações de tecido para o livro ‘O congo vem aí’ de Sérgio Capparelli.

A partir de 2007, todos os integrantes do grupo se enveredaram na costura dos cenários utilizados no o projeto, aprofundaram a parceria de criação de painéis com o projeto peruano ‘Manos que cuentan’ e, pela primeira vez, investiram em repertórios exclusivos para jovens e adultos. Para crianças, o grupo montou duas sessões: ‘Bicho do Mato’, para a qual o grupo confeccionou um jardim todo de tecido (vaso, planta, moita, pedra e jardineira) que serve de abrigo para contos populares brasileiros e histórias de Ana Maria Machado e Ricardo Azevedo; e ‘Palavras Andantes’, que conta com painéis-cenários feitos no Peru para ilustrarem narrativas da América do Sul. Para jovens e adultos, outras duas sessões: ‘O mundo de fora pertence ao mundo de dentro’ traz caixas, vestidos, painéis e saia, para narração de contos de Ricardo Azevedo (Brasil) e Peter Bichsel (Suíça); já ‘Divinas y Humanas’ apresenta contos de amor e erotismo do universo andino, com a ajuda de objetos e tapetes criados no Peru.

Em 2009, o grupo montou dois espetáculos (um infanto-juvenil e outro adulto) que se apropriam de elementos teatrais como o trabalho físico dos atores, dança, música ao vivo, luz, cenário, figurino. Em ‘Passarinho à toa’, a poesia de Manoel de Barros (Brasil) é pano de fundo para um curioso quintal reinventado, que mescla palavra, viola, corpo e tecido; já em ‘3Horizontes’, atores e violoncelista exploram um conjunto de linguagens (oralidade, dança, música ao vivo, artes visuais) para dar corpo e voz a contos trágicos de Margueritte Yourcenar (Bélgica). Neste mesmo ano, o grupo tornou-se representante brasileiro de ‘La Red Latinoamericana de Cuentería’ e produziu o I Encontro Internacional CAIXA de Contadores de Histórias, em Salvador.

Em 2010, em parceria com a Coordenadoria do Livro e Leitura / Prefeitura do Rio, o grupo passou a responder pela curadoria e produção do ‘Ciranda de Histórias’ – circuito de narradores pelas bibliotecas públicas do Rio de Janeiro.



Que legal! 11 pessoas comentaram

  1. Simplesmente maravilhosa a proposta de vcs. Parabens!!! Espero poder vê-los/as e ouvi-los/as por aqui um dia (Joao Pessoa-PB)

  2. ostapetes wrote:

    oi adriana, nossa agenda está atualizada agora. obrigado pelo contato. um abraço, cadu

  3. Maravilhoso o trabalho de vcs, sou artista têxtil desde 2007, e faz dois anos que venho colocando o têxtil no teatro, no meu grupo e com algumas participações com figurino no Grupo Sobrevento. Ver o trabalho do grupo é uma ótima referência e uma inspiração para mim, pena que vcs estão no Rio, pois gostaria de conhecer de perto a produção.

  4. Heliane wrote:

    Vi, aqui em Brasília, os objetos expostos na Caixa Cultural, mas cheguei tarde para contação de histórias.
    Mesmo assim nunca me esqueci de vcs, me encanta o fato de trabalharem com duas coisas que amo: histórias infantis e panos. Voltem!

  5. andrea wrote:

    Lindo o trabalho de vocês, assisti na exposição de Recife, fiquei encantada e muito motivada, pois sou professora e adoro encantar meus alunos com novidades!!!! PARABÉNS!!!!

  6. Magno wrote:

    Muito interessante o trabalho de vocês, minha cidade necessita muito de apresentações culturais assim, gostaria muito que se apresentassem aqui.
    Parabéns pelo trabalho e continuem assim.

  7. Daniela wrote:

    Que trabalho lindo! Sou estudante de pedagogia e meu TCC provavelmente descreverá a importância da contação de historias nas escolas. Vasculhando a net, encontrei vcs, e estou encantada.
    Gostaria muito de saber se existe alguma agenda aqui em SP para ter o prazer de assisti-los.
    Parabéns !

  8. Silvana wrote:

    Recebi o presente de poder contemplar desta magia,que é o universo das histórias; e ainda com vocês sendo os narradores,simplesmente magnífico.
    Assisti o espetáculo ontem no Parque Municipal de Exposição de Itaipava(Petrópolis/RJ).